FANDOM


Silas Heap apertou ainda mais a capa em volta do corpo para se proteger da neve. Tinha sido uma grande caminhada através da Floresta, e estava gelado até os ossos. Mas nos bolsos levava as ervas que Galen, a Curandeira, lhe tinha dado para o seu bebê, Septimus, nascido algumas horas antes.

Silas estava mais perto do Castelo, e podia ver as luzes a cintilar através das árvores à medida que as pessoas punham velas nas janelas das casas altas e estreitas que se amontoavam ao longo das muralhas exteriores. Era a Noite Mais Longa do Ano, e as velas iam ficar acesas até de madrugada, para manter as trevas afastadas. Silas sempre gostara daquela caminhada até o Castelo. Não tinha medo da Floresta durante o dia e desfrutava do passeio tranquilo ao longo do caminho estreito que se estendia através de quilômetros e quilômetros de denso arvoredo. Agora estava mais próximo da orla da Floresta, as árvores altas tinham começado a tornar-se mais escassas, e com o caminho a mergulhar para o fundo do vale, Silas podia ver a totalidade do Castelo a espalhar-se à sua frente. As velhas muralhas abraçavam-se ao rio largo e serpenteante e ziguezagueavam em torno do confuso amontoado de casas. Todas as casas estavam pintadas com cores alegres, e aquelas que se encontravam voltadas para ocidente pareciam estar a arder com as janelas a apanhar os últimos raios daquele sol de Inverno.

O Castelo começara por ser uma pequena aldeia. Por estar tão próxima da Floresta, os aldeões ergueram paredes altas, de pedra, para se protegerem dos carcajus, bruxas e feiticeiros que não hesitavam em lhes roubar as ovelhas, galinhas e, de vez em quando, os próprios filhos. À medida que se foram construindo mais casas, as paredes alargaram-se e foi escavado um profundo fosso para que todos se sentissem seguros. Depois de pouco tempo o Castelo já atraía artífices habilidosos que vinham de outras aldeias. Cresceu e prosperou, tanto que os habitantes começaram a ficar sem espaço, até que alguém decidiu construir Os Emaranhados.

Os Emaranhados, que era onde Silas, Sara e os meninos viviam, eram um enorme edifício de pedra que se erguia ao longo da margem do rio. Estendia-se por quatro quilômetros e meio ao longo do rio e outros tantos até o Castelo, e era um lugar muito ativo e barulhento, um emaranhado de corredores e quartos, com pequenas fabriquetas, escolas e lojas misturadas com quartos familiares, minúsculos jardins cobertos, e até um teatro. Não havia muito espaço nos Emaranhados, mas as pessoas não se importavam. Havia sempre boa companhia e alguém para brincar com as crianças.

Quando o sol de Inverno desapareceu por trás das muralhas do castelo, Silas apressou o passo. Precisava chegar ao Portão Norte antes que o fechassem e levantassem a ponte levadiça ao cair da noite. Foi nessa altura que Silas sentiu alguma coisa nas proximidades. Qualquer coisa ainda viva, mas que não aguentaria muito. Estava ciente do bater de um pequeno coração humano em algum lugar ali perto. Silas parou.

Como um Mago Ordinário era capaz de sentir algumas coisas, mas como não era um Mago Ordinário muito competente, precisava se concentrar muito. Ficou muito quieto, com a neve a cair rapidamente à sua volta e já cobrindo suas pegadas. E então ouviu qualquer coisa — um fungar, um lamento, um respiro? Não tinha certeza, mas era o suficiente.

Debaixo de um arbusto ao lado do caminho havia uma trouxa. Silas pegou-a e, para sua grande surpresa, deu consigo a olhar diretamente para os olhos solenes de uma bebê pequenina. Silas aninhou a bebê ao colo e interrogou-se como ela poderia ter ido parar ali, no meio da neve, no dia mais frio do ano. Alguém a tinha embrulhado cuidadosamente num pesado cobertor de lã, mas mesmo assim já estava ficando com muito frio: os lábios estavam de um azul pálido e a neve cobria-lhe as sobrancelhas como se fosse pó. Com os olhos de um violeta escuro a olhar fixamente para ele, Silas teve a desconfortável impressão de que a bebê, na sua curta vida, já tinha visto coisas que nenhum bebê devia ver.

Ao pensar na sua Sara em casa, quente e segura com Septimus e os rapazes, Silas decidiu que iam ter que arranjar lugar para mais uma pequenina. Acondicionou cuidadosamente a bebê no interior de sua capa azul de Mago e apertou-a contra si, enquanto corria para o portão do Castelo. Chegou à ponte levadiça bem quando Gringe, o Guarda do Portão, estava se preparando para gritar ao Menino da Ponte Levadiça para que começasse a levantá-la.

— Foi por um triz — rosnou Gringe. — Mas vocês, Magos, são esquisitos. Por quê 'cês querem andar aqui fora num dia como este eu num sei.

— Oh? — Silas queria se livrar de Gringe o mais depressa possível, mas primeiro tinha que lhe amanteigar as mãos com algumas moedas. Silas encontrou rapidamente uma moeda de prata num dos bolsos e entregou-o. — Obrigado, Gringe. Boa noite.

Gringe olhou para a meia coroa como se fosse um escaravelho particularmente repugnante.

— A Marcia Overstrand, ainda 'gorinha mesmo me deu meia coroa. Mas ela tem classe, ainda mais agora que é a Maga ExtraOrdinária.

— O quê? — Silas quase se engasgou.

— Pois é. Classe, é o qu'ela tem.

Gringe afastou-se para deixá-lo passar, e Silas apressou-se a passar por ele. Por muito que quisesse descobrir por que é que Marcia Overstrand era subitamente a Feiticeira ExtraOrdinária, podia sentir a trouxa começar a agitar-se no calor de sua capa, e algo lhe dizia que era melhor que Gringe não soubesse sobre a bebê.

Quando Silas se preparava para desaparecer nas sombras do túnel que levava aos Emaranhados, um vulto alto, vestido de roxo, entrou no caminho e impediu-lhe a passagem.

— Marcia! — exclamou Silas. — Mas o que se...

— Não diga a ninguém que a encontrou. Ela nasceu de vocês. Entendeu?

Em choque, Silas anuiu. Antes que tivesse tempo de dizer alguma coisa, Marcia tinha desaparecido num cintilar de névoa purpurina. Silas percorreu o resto do longo e tortuoso caminho através dos Emaranhados com a mente em torvelinho. Quem era esta criança? O que Marcia tinha a ver com ela? E por que é que Marcia era a Maga ExtraOrdinária agora? E, à medida que se aproximava da grande porta vermelha que levava à já superlotada casa da família Heap, uma outra e mais importante pergunta lhe ocorreu: o que iria dizer a Sarah por ter mais uma criança de quem cuidar?

Silas não teve muito tempo para pensar nesta última questão. Ao chegar à porta esta abriu-se de repente, e uma grande mulher de cara avermelhada, vestindo a túnica azul-escura das Parteiras-Chefes, saiu correndo, quase atirando Silas ao chão. Ela também carregava uma trouxa, mas a trouxa estava embrulhada dos pés à cabeça em ligaduras, e levava-a debaixo do braço como se fosse um pacote e ela estivesse atrasada para os correios.

— Morto! — gritou a Parteira-Chefe. Afastou Silas para o lado com um forte empurrão e desapareceu corredor abaixo. No interior do quarto, Sarah Heap gritou.

Silas entrou com um peso no coração. Viu Sarah rodeada por seis garotos muito pálidos, todos assustados demais para chorar.

— Ela o levou — disse Sarah desesperada. — Septimus morreu, e ela o levou.

Nesse momento, uma umidade quente libertou-se da trouxa que Silas tinha escondida sob sua capa. Silas não encontrava palavras para aquilo que queria dizer, por isso limitou-se a tirar a bebê de sob a capa e colocou-a nos braços de Sarah.

Sarah Heap desfez-se em lágrimas.

Interferência de bloqueador de anúncios detectada!


A Wikia é um site grátis que ganha dinheiro com publicidade. Nós temos uma experiência modificada para leitores usando bloqueadores de anúncios

A Wikia não é acessível se você fez outras modificações. Remova o bloqueador de anúncios personalizado para que a página carregue como esperado.

Também no FANDOM

Wiki aleatória